Parece-me que descrever a Dislexia como distúrbio ou transtorno seja mais apropriado ao quadro de sintomas e sinais
Todos estes termos têm sido utilizados para a definição ou descrição da Dislexia. Mas afinal há diferença? O que cada um deles quer dizer de fato?
Buscando resposta e estas indagações, o auxílio chega através do material mais básico que existe para solução deste tipo de dúvida: o dicionário. Além deste material foram consultados artigos científicos, DSM IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais – quarta edição) e CID-10 (Código Internacional de Doenças – décima revisão).
Distúrbio encontra-se definido como sendo uma variável indesejada que tende a influir ou perturbar outra variável. Mas ainda está confuso…
Também é descrito como uma perturbação, mau funcionamento e interrupção da seqüência normal de continuidade, ou mesmo afastamento da norma considerada e está mais vinculada ao sujeito, considerando a existência de comprometimento neurológico; enquanto que o termo dificuldade está relacionado a problemas psicopedagógicos eou sócio-culturais, ou seja, não está centrado no indivíduo, podendo estar relacionado ao processo de ensinoaprendizagem e ainda ao meio.
Ainda encontramos distúrbio descrito como sendo uma alteração violenta na ordem natural. Esta alteração é compreendida como sendo no sentido de anormalidade.
Já especificamente o Distúrbio de Aprendizagem é definido como um problema que acomete o sujeito individualmente e em nível orgânico.
Este não é um termo exato, porém é utilizado para indicar a existência de um conjunto de sintomas ou comportamentos com início que ocorre invariavelmente no decorrer da infância com um comprometimento ou atraso no desenvolvimento de funções relacionadas à maturação biológica do Sistema Nervoso Central, com curso estável não envolvendo remições e recaídas.
Deve-se considerar ainda que o transtorno não seja conseqüência de uma falta de oportunidade de aprender nem são decorrentes de qualquer forma de traumatismo ou doença cerebral adquirida. Origina-se de anormalidades no processo cognitivo que derivam de algum tipo de disfunção biológica.
O termo transtorno revela desarranjo ou desordem neurológica e é usado para evitar termos como doença, caracterizando-se por um conjunto de sintomas sem compromisso com doença, envolvendo sofrimento psíquico e prejuízo do desempenho pessoal.
Caracteriza-se por condição anormal de um organismo que interfere nas funções corporais e está associada a sintomas específicos.
É considerada como uma disfunção de um organismo causada por agentes externos ou não ou qualquer condição mórbida ou danosa.
O processo mórbido seria definido como tendo um conjunto característico de sintomas e sinais que leva o indivíduo a tratamento médico.
Definida como um conjunto de sintomas que ocorrem em conjunto.
Ou um conjunto bem determinado de sintomas que não caracterizam uma só doença, mas podem traduzir uma modalidade patogênica.
A rigor não estaria completamente errado definir-se a Dislexia por qualquer dos termos descritos acima. Porém há sutilezas que devem ser consideradas.
A doença leva o indivíduo a tratamento médico. Embora seja possível haver um acompanhamento medicamentoso para a melhora da condição de atenção, este é apenas um dos muitos sintomas ou sinais que são encontrados entre os disléxicos, não sendo possível dizer que a dislexia seja passível de tratamento médico.
A dislexia caracteriza-se por diferença no processamento de informações visuais e auditivas entre outras características e assim sendo se a classificarmos como doença, deveríamos classificar o canhotismo da mesma forma como sendo uma doença, uma vez que os indivíduos canhotos também processam informações de forma diferenciada em relação aos demais indivíduos.
Sendo assim o termo Síndrome, que está relacionado diretamente a doença, também não se enquadraria, embora haja um conjunto de sintomas que caracterizem a Dislexia.
Parece-me que descrever a Dislexia como distúrbio ou transtorno seja mais apropriado ao quadro de sintomas e sinais, muito embora o termo transtorno se aproxime ainda mais.
Creio que se trata de sutileza, porém estas sutilezas são importantes quando consideramos o disléxico como um ser social que já tem lá suas dificuldades para ser aceito e compreendido sem ser considerado como portador de uma doença.
Maria Inez Ocanã De Luca *
* Mestre em psicologia, pós-graduada em aprendizagem com foco em saúde e especializanda em neuropsicologia. É integrante da Associação Brasileira de Dislexia (ABD)
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