Afetadas pelo crescimento das metrópoles e pela fuga da classe média, escolas públicas de áreas nobres buscam saídas para a falta de estudantes
A EE Guilherme Kuhlmann fica na Lapa, bairro de classe média na região centro-oeste da capital paulista. A área é movimentada e conta com comércio variado e farta oferta de transporte público – na vizinhança, há uma estação de trem e um terminal de ônibus. Na teoria, pode-se imaginar que seja um local disputado para receber as crianças das redondezas. A realidade, porém, é bem diferente. Das 800 vagas, apenas 514 foram preenchidas no início de 2010, acompanhando a tendência de queda (desde 2005, a escola perde em média 46 alunos a cada novo ano letivo). Há também duas salas totalmente sem uso – uma delas virou depósito de materiais.
Não se trata de um caso isolado. A situação é comum nas escolas situadas em bairros de áreas centrais e nobres de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte – e em metrópoles de porte médio, como Ribeirão Preto, a 314 quilômetros de São Paulo. O quadro é o ref lexo do processo de crescimento urbano que marca as grandes cidades. O primeiro fator tem relação com seu próprio movimento de expansão – em geral, elas crescem do centro para as periferias. Como resultado, há o esvaziamento e a decadência das áreas centrais, que passam a contar com menos habitantes. Assim, escolas, hospitais e bibliotecas instalados por lá quando a área era populosa passam a ser subutilizados.
Um segundo aspecto, presente sobretudo nas regiões nobres, diz respeito à condição socioeconômica das crianças em idade escolar. Em geral, são filhos de famílias de classe média ou alta, que têm preferido instituições particulares para educar os filhos. A consequência, novamente, é a diminuição do número de matrículas na rede pública. “Hoje, a clientela das escolas estaduais e municipais nos bairros de elite é composta principalmente por estudantes de classe baixa que moram longe”, explica José Marcelino Rezende Pinto, professor da Universidade de São Paulo (USP), campus de Ribeirão Preto. É justamente o que ocorre na Guilherme Kuhlmann, onde há alunos de bairros como Perus (a 13 quilômetros de distância) e até outras cidades da região metropolitana, como Santana de Parnaíba, a 32 quilômetros. Para Rezende Pinto, essas pessoas são atraídas para o centro pela infraestrutura e qualidade do ensino, que costuma ser melhor do que a média. Isso se dá, em parte, porque os docentes mais bem colocados nos concursos públicos escolhem trabalhar nessas instituições.
Enquanto isso, nas periferias, a situação se inverte. Na EE Joiti Hirata, no Campo Limpo, a 29 quilômetros do marco zero da capital paulista, 1.889 alunos se apertam nas 17 salas da escola – média de 45 por turma. No dia em que a reportagem de NOVA ESCOLA esteve lá, pelo menos três professores faltaram. A biblioteca não funciona por ausência de funcionários e o laboratório de Ciências e a quadra poliesportiva foram desativados para dar lugar a novas salas. Novamente, o exemplo não é único: a combinação de turmas inchadas, falta de pessoal e infraestrutura precária é comum em diversas outras regiões de ocupação urbana recente. Nesse cenário, cabe perguntar: o que fazer para resolver o problema de baixa demanda no centro e de procura excessiva na periferia?
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